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Pretendo aqui divulgar e valorizar manifestações culturais, filmes, espetáculos teatrais, exposições, entre outras, que abordam de alguma maneira as questões relativas à Assistência Social e aos Diretos Humanos no Brasil e no mundo.



Cinema

DO COMEÇO AO FIM

Fui ver o filme do "Do começo ao Fim". Filme nacional.

O filme fala sobre um romance apaixonado entre dois homens.

Dois caras lindos que foram criados juntos e desde cedo o mais velho protegia o mais novo. Dois caras que se amam muito e isso fica muito claro nas cenas em que estão juntos.

Desde crianças as pessoas percebem que eles se amam e se cuidam.

O filme é cheio de pessoas compreensivas com este universo do afeto entre dois homens. Não é um filme com clichês, mas é um filme onde a palavra compreenção é a chave das relações.

Eu tenho um amigo que disse que filmes gays precisam ser sempre com final feliz pois isso ajuda as pessoas nos aceitarem e aos próprios gays a terem mais coragem de viverem seus afetos. Não sei se o cinema tem obrigação com uma felicidade sem barreiras. Gosto mais do cinema que se atreve a questionar o mundo e todas as suas contradições.

"Do começo ao fim" é um filme que fala de dois jovens lindos, que moram em uma linda casa, com pais lindos e trabalhadores. Fala de dois jovens que tem sucesso em suas carreiras. Não é um filme com uma única cena feia.

Apenas um detalhe destoa desta regra geral de felicidade. Os dois jovens são irmãos. Isso mesmo. Filhos de pais separados, mas da mesma mãe. Irmãos que desde crianças estiveram apaixonados e que cresceram e trasnformaram esta paixão em um sólido namoro.

Aqui está a contradição do filme. No meio de tanta felicidade e de tanta perfeição o filme nos oferece uma pergunta: É possível que dois irmãos se apaixonem É possível aceitar esta paixão? É possível que os pais e as pessoas vejam dois irmãos se apaixonarem e sexualizarem a relação?

Eu que me considero um total liberal sai do cinema cheio de perguntas sobre estas possibilidades?

Eu nunca pensei em sexualizar relações com amigos que dirá com irmãos. Estarei, eu o mais liberal dos liberais, aberto a aceitar este tipo de paixão ou estarei me percebendo um ser humano que ainda guarda algum conservadorismo?

Sabia da história do filme antes de começar e do começo ao fim me fiz esta pergunta. Sou um conservador?

Quem me conhece deve estar achando que a resposta seria não, mas preciso dizer com todas as letras que eu não fiquei confortável no filme. De certa forma foi bom me sentir assim. Ainda tenho limites. Nem sei se vou ou se quero superar todos eles.

Tenho certeza de que não jogaria pedra em dois irmãos ou irmãs que se apaixonam, mas devo dizer que não acharia a coisa mais normal do mundo e também tenho certeza de que não jogaria pedras neles.

Eu ainda tenho limites. Eu ainda não sei se tudo é possível. Eu estou surpreso comigo.

ALÔ ALÔ TERESINHA

Fui ver o documentário sobre Chacrinha. Os mais novos não sabem muito bem quem foi, mas para nós, com mais de 30 anos, Aberlardo Barbosa estava com tudo e não estava prosa.... Esta música até hoje está na nossa cabeça.

Cheguei cinco minutos atrasado pois estava vindo de outro filme: Coco, antes de Chanel (que aliás não gostei). Cheguei e encontrei um cinema lotado. Lotado e participativo. Gente carregada de saudades de um tempo distante.

O filme faz uma viagem nos nossos tempos. Eu mesmo dei conta de que muitas lembranças daquela época estavam comigo, às vezes um pouco apagadas, mas em geral elas estavam lá.

O filme mostra muito as chacretes. A única palavra que me vem a cabeça para falar delas é decadência. Estão em geral pobres, gordas, velhas, feias e vivendo de atividades que nada lembram os tempos do Cassino do Chacrinha.

Estas estão presas em lembranças e presas a um passado que, devem ter certeza, não volta mais. Parece que não acreditavam que o Cassino do Cacrinha fosse acabar ou que fossem envelhecer. Chegaram em 2007 (ano em que o filme foi feito) vivendo em condições para lá de adversas.

Os depoimentos das Chacretes marcam o fim de uma geração que de certa forma acabou numa enorme clandestinidade e em situações super complicadas.

O filme é muito legal. No dia que eu vi as pessoas estavam participando de cada detalhe do filme e o espírito da saudade predominava muito no cinema.

Fui pensar em que saudades me trazem os tempos do Cacrihnha. Eu era jovem, animado e acreditava em uma vida para mim que não foi a que de fato vivi. Em 1988, ano em que Chacrinha morreu, eu estava no Seminário Jovens da Verdade. Pensava em ser pastor.

Como todos sabem eu não fui pastor. A vida me deu outras motivações e sai dos anos 80 uma pessoa e virei outra nos anos 90.

Acho que é por isso que eu tenho tanto distanciamento dos anos 80. Aquele Marcelo não era verdadeiro. Era cheio de medo. Era cheio de dúvidas e não tereia sobrevivido aos anos 90 se não tivesse mudado.

Vendo Alô, Alô Teresinha tive um certo alívio em perceber que a minha vida não ficou presa em algum tempo atrás. Os tempos foram sendo vividos sem medo. Fiz de tudo na vida. Tudo? Não. Quase tudo. E tudo foi passando.

Vendo os depoimentos das Chacretes senti um puta alívio.

Tudo bem que era um baratoo Cassino do Chacrinha, mas adoro saber que estou vivo vendo o Caldeirão do Huck.

SALVE GERAL

Fui ver o filme Salve Geral. É o filme brasileiro indicado para concorrer ao OSCAR. Eu torcia pela Festa da Menina Morta, mas devo confessar que como cinema, Salve Geral tem bem mais chances. Gostei muito do filme também.

Uma amiga me disse que era muito bom e que Andreia Beltrão estava maravilhosa. De fato o filme é muito bom e Andreia Beltrão está maravilhosa.

O filme narra aqueles dias que São Paulo parou por conta do PCC (Primeiro Comando da Capital). Fala do horror das prisões, de um sistema penitenciário corrupto e de um país que não olha para seus principais problemas como pobreza e violência. De um Brasil que não tem a menor noção de onde vai parar.

Na Prefeitura do Rio fizemos um longo trabalho com ex-presidiários. Era o projeto Agentes da Liberdade. Acho que acabou, mas durante sete anos atuamos em direção aos ex-presidiários que saiam da prisão sem ter a passagem para voltar para casa. Voltavam e não conseguiam se reintegrar e acabavam voltando para o crime.

Uma vez, em 2002, no Complexo do Alemão fiz uma reunião e perguntei se naquela sala tinha ex-presidiários. Todos os homens levantaram as mãos. O cotidiano da prisão, da cadeia e do crime é uma rotina nas famílias pobres do Brasil.

Salve Geral mostra um Sistema Penitenciário real. Um sistema que não tem qualquer preocupação com o futuro das pessoas. Faz do punir uma receita amarga para cada pessoa e se mostra bastante competente para aprimorar o crime organizado.

Em 2006, São Paulo viveu o terror de uma cidade sitiada pelo crime. De uma cidade que viu de perto que a violência pode sim, de uma hora para outra, invadir nossas vidas de forma avassaladora.

O Sistema Penitenciário no Brasil precisa ser revisto. Não podemos tratar "bandidos" como animais. Este caminho vai construir mais e mais violência.

As Penitenciárias no Brasil são o rascunho do inferno. A falta de liberdade é que deve ser a forma de punir. Tratar o preso como uma sarna ou bicho é investir num futuro muito pior para todos nós.

Eu diria que o filme, mais do que tudo, é a história de uma mãe (Andreia Beltrão) querendo salvar seu filho desta tragédia. Ela, uma professora de piano, acaba indo longe demais para que seu filho possa voltar a viver. O fim do filme em que o filho diz que está com fome deixa mais do que claro que temos ali uma história sobre uma mãe que quer cuidar de seu filho.

Salve Geral é um alerta para a sociedade que em geral quer tratar "bandido" de forma desumana. Peço atenção com esta interpretação da forma de punir. De certa forma, em muito pouco tempo, os punidos seremos todos nós.

FILADELFIA

Acabo de rever o Filme Filadelfia com Tom Hanks e Denzel Washington. O primeiro filme de grande circuto a tratar da questão da Aids.

Em 1993 a Aids ainda era um fantasma para o mundo. Não havia tratamento e o preconceito era imenso.

Um filme como Filadelfia mais do que tudo diz ao mundo que a Aids não é castigo, não é peste e nem é um cancer gay.

Em 1983 quando eu escutei falar em Aids (este nome nem existia) pela primeira vez foi como cancer gay. Uma doença para castigar os gays e uma maneira de acabar com uma forma imoral de viver.

Eu tive muito medo. Eu tinha só 14 anos, mas eu sabia que eu, a qualquer momento, poderia ter esta peste ou este cancer gay.

Vendo o filme fica claro que a Aids foi usada de forma desleal para atacar gays de todo mundo. A Aids dizimou histórias e ao mesmo tempo atrasou a liderdade de gays que só viria (se é que veio) na década seguinte.

Meu medo não era ter Aids. Meu medo era que ao ter Aids as pessoas saberiam que eu era gay. Meu medo e pavor era ser o que eu sabia que o mundo odiava: um gay. E sabedor disso fugi muito desta realidade e durante muito tempo eu vivi dentro de um trem fantasma com medo.

Quando eu vi Filadelfia em 1993 eu ja namorava o Thiago. Fui ao cinema em Copacabana com 3 amigos (1 já morreu) e me lembro do cinema lotado e uma teia de solidariedade sendo construida em direção aos gays.

Nunca foi fácil ser gay. Foi muito mais dificil para minha geração que cresceu com a Aids sendo uma chaga, uma peste, um cancer que se espalhava pela sociedade te culpando por ficar doente. Ter Aids era imoral. Quem tinha Aids merecia ter a doença pois não se "comportou".

O filme é histórico. É emocionante e joga uma luz de esperança no nosso futuro. Dezesseis anos depois eu posso dizer que as coisas estão muito melhores. O preconceito é menor. As formas de protestar são maiores.

Eu porém não me iludo. Eu sei que ser gay ainda é condenável. É confuso na cabeça das pessoas e ainda sou visto como uma pessoa diferente. Eu sei que a vida ainda vai ter que ser muito vivida para que eu sinta que as pessoas me acham normal.

Por enquanto os convites de casamento vem só em meu nome. Nuncam perguntam pelo namorado e no trabalho é como se eu não tivesse uma sexualidade pois este é um assunto que não se trata comigo.

Com quase 40 anos não me arrependo de viver a minha homosexualidade com uma liberdade possível, mas gostaria que esta liderdade não fosse controlada. Preferiria que as pessoas apenas achassem que o fato de eu gostar de um homem e não de uma mulher não muda em nada minha vida e minhas expectativas nas relações.

Revendo Filadelfia eu pude lembrar que o preconceito é um veneno sem limites nas nossas vidas. Muitos já morreram.

TEMPOS DE PAZ

Fui ao cinema ver Tempos de Paz. O filme é baseado na peça do Bosco Brasil - Novaz Diretrizes em Tempo de Paz. O filme é do Diretor Daniel Filho.

O filme é a soma de muitas coisas, mas sobretudo da atuação de Toni Ramos e Dan Stubart.

A história é a seguinte: Dan faz um Polones que perdeu toda a sua família na segunda guerra e vem para o Brasil para tentar trabalhar como agricultor. Vem tentar uma nova vida.

Toni faz um torturador do Estado Novo. Ambos se encontram no momento em que o personagem de Dan precisa de um visto para entrar no Brasil e é o personagem de Toni que pode ou não dar o visto.

Toni e seus assessores acham que Dan é comunista e jogam duro para que ele ganhe o visto. Toni chega a perguntar como ele quer ser agricultor no Brasil se fala o português e tem a mão com um único calo.

É nesta luta entre a busca do visto por parte de Dan e a resistência de Toni para dar o visto que o filme vai acontecer. Os diálogos são fortes, emocionantes e duros. Descortina completamente as histórias e lembranças das duas pessoas que vão falando coisasque a cada minuto nos emociona mais e mais.

Toni é um torturador que conta em detalhes os seus métodos para cumprir ordens. Diz que na verdade cumpre ordens e ponto. Não questiona qualquer ordem. Diz em um momento que Dan tem 10 minutos para fazê-lo chorar contando suas "tristes histórias". Dan diz que isso ele não vai conseguir.

Está em jogo o visto de entrada no Brasil. Se em dez minutos isso não ocorrer ele volta para o navio e não entraria no Brasil. Dan nunca foi agricultor. Na Polônia ele era um grande ator.

Dan é quem chora com as histórias de torturas contadas por Toni.

Dan embarca em uma fantasia e começa a encenar uma peça para Toni que se emociona profundamente e chora. Chora, mesmo dizendo que não entendeu nada.

Dan descobre que ele de fato não é e nunca será um agricultor. É um ator e quer continuar atuando e levando emoção. Toni, emocionado, busca mais daquela emoção e o filme termina em uma cena que é pura fantasia e emoção.

Tive certeza do poder da cultura na vida das pessoas. A cultura nos leva a atravessar mundos. Nos leva a nos repensar. Nos leva a nos reinventar. Foi o Teatro que fez o personagem de Toni se ver de outra forma. Foi o teatro que o fez chorar.

Outro dia um jornalista me perguntou o que me salva no dia a dia. Eu disse que era o cinema. O cinema de fato é o espaço que me leva a novos horizontes e me possibilita rever minhas interrogações mais complicadas.

Não estou falando de puro entretenimento. Estou falando de um movimento que entra na vida da gente através da música, da dança, do teatro, cinema, poesia, literatura, contos... entra e nos pergunta se está tudo bem.

E quando a gente consegue responder é simplesmente maravilhoso.

Não deixem der ver Tempos de Paz. Eu vou ver de novo.

NA NATUREZA SELVAGEM

No frio (muito frio) do último final de semana na serra resolvi ver filmes. Levei três para ver. Começei por um que foi inesquecivel.

Ao ligar o DVD eu fui ao encontro do filme "Na Natureza Selvagem" com roteiro e direção de Sean Penn. E de fato foi um encontro com uma história sincera e com muitas histórias e lembranças de mim mesmo. Fui ao encontro de algumas de minhas maiores covardias também.

A história de Christofher é a seguinte: É um jovem que acaba de se formar na faculdade. Filhos de pais complicados, conservadores e afastados de vivências que tenham no afeto suas maiores expressões.

Ao terminar a faculdade resolve abandonar sua vida de conforto e fazer uma viagem que o leve para longe. Ele quer ir para o Alasca. Uma viagem selvagem e cheia de desafios. Ele deixa a família e segue para sua aventura sem dizer adeus. Segue para um caminho que desconhece, mas antes de chegar no Alasca ela ainda irá encontrar muitas histórias e muitos afetos.

Ele deixa seus pais sem qualquer notícia e muda seu nome para Alex Super Andarilho (Alex Supertramp). Tudo que ele quer é se reinventar e desenvolver novas histórias e novas relações. Quer se afastar totalmente do peso e do fardo que é sua família e sobretudo seus pais.

E cá entre nós quem foi que disse que família é para sempre? Que pai e mãe são para sempre? Se estas relações não são pautados por amor, afeto e carinho o caminho pode ser da reinvenção das relações sim. Todo mundo tem o direito de reinventar sua história. Pai, mãe e família se não forem um retrato de afeto não devem ser um retrato para sempre. Mudar o para sempre pode ser uma solução fundamental para a vida voltar a valer a pena.

Alex vai andando pelo país e de lugar em lugar ele vai encontrando gente muito legal. Encontra um casal de hippies que traduzem muito mais a questão da família do que a que conheceu como família. Conhece um velho que o trata como neto e ambos desenvolvem um afeto lindo um pelo outro. Nestas caminhadas para o Alasca mais do que tudo ele encontra gente que gosta de gente e não de rituais e ou de histórias fechadas.

Chega ao Alasca e lá fica muito tempo. Em toda sua viagem ele escreve seu diário e no Alasca muita coisa acontece. Ele vai se desobrindo e vai se reinventando mas em um momento lindo diz que a felicidade deve ser compartilhada. É um grito forte de que ninguém deve ser só. Por melhor que Alex estivesse no Alasca ele teve a certeza de que podia e deveria ter histórias com outras pessoas.

Não vou contar o final do filme. Pega para assistir. É pura emoção.

Outro dia, na minha casa em Brasília, eu e um amigo escutávamos PIAF. Eu dizia que me arrependo de muita coisa e ele dizia que como Piaf não se arrepende de nada. Nunca consegui entender quem não se arrepende. Me soa como preguiça de se repensar e de se reinventar.

Estava na serra juntando os cacos de minhas covardias, memórias, histórias, lembranças, alegrias, amores, desamores, emoções, medos e angustias e pensando que eu sou um pouco disso tudo. Não dá mais para ir para o Alasca, mas dá para continuar a tentar me reinventar. Eu posso ser outro. Quem disse que não? Eu posso ser outro e ser com os outros.

Eu de certa forma sempre fui ao encontro de novos afetos pois os "tradicionais" nunca foram especiais. Sempre busquei meu Alasca, mas na verdade nunca tive a coragem necessária para sair por ai. Eu me formei e fui fazer carreira. Eu podia ter me formado e ter ido fazer a vida.

HÁ TANTO TEMPO QUE TE AMO

Um dia eu e um amigo ficamos com o segundo caderno do correio Brasiliense para escolher um filme. Escolhemos um chamado "Há tampo tempo que te amo". Foi uma escolha mais do que acertada.

O filme fala sobre uma mulher que passou 15 anos na prisão por ter matado o próprio filhos de seis anos.

Esta mulher fica 15 anos presa sem contato com os pais, que a renegam, e com a irmã mais nova que é proíbida de ver ou se comunicar com ela.

Ao sair da prisão o Serviço Social faz a ponte para que ela vá para a casa de sua irmã mais nova que está casada e tem duas filhas adotivas.

O filme é feito de diálogos curtos e de muitas expressões.

O marido da irmã mais nova não gosta de ver uma mulher que teve coragem de matar seu próprio filho ao lado de suas duas filhas. As conversas entre marido e sua esposa sobre o assunto são sempre tensas e o marido acha que esta mulher é um risco para as crianças.

Tem uma cena em que a mulher (Juliette) procurando emprego é questionada pelo dono da empresa o que ela fez para ficar 15 anos presa. Ela se mantém em silêncio. Ele pergunta de novo e diz que deve ter sido algo muito grave. Ele pergunta quem ela matou e ela responde suavemente que foi o filho e ele aos gritos bota ela para fora da empresa.

Vale dizer que Juliette era médica antes da prisão e começa a procurar qualquer emprego depois que saiu da prisão. Ela não pode escolher.

Todos acham que o crime foi uma barbarie muito grande e tendem a não querer Juliette por perto. Sua irmã (Lea) no entanto insiste que ela merece recomeçar e as conversas sobre o passado são sempre muito passageiras.

Eu de cara gostei de Juliette. Achei que ela era uma pessoa legal. Tinha errado. Um erro horrível é verdade, mas ela deveria ter o direito de recomeçar. Ou não?

Em um determinado momento do filme Lea (a irmã) descobre que seu sobrinho estava muito doente antes de morrer. E pede para um amigo médico ver os exames. Nesta hora meu amigo diz de forma forte e com a força de quem é pai de dois filhos: "caralho, esta mulher matou o filho por amor" e daí em diante ele não para de chorar.

O filho de Juliette tinha uma doença terminal. E muitas dores e não conseguia respirar. Ela não suportando ver seu filho morrer com tanta dor resolve dar uma injeção letal no filho para que este pudesse descansar de um sofrimento insuportável para uma criança de 6 anos. Ela vai presa e não tem marido, pai, mãe e ninguém que a defenda do que fez. Resolve ir presa em silêncio e em silêncio ficou 15 anos. Juliette diz para Lea que não há prisão maior do que a morte de um filho.

O filme mostra Juliette tentando voltar a vida depois de 15 anos de prisão. Cheia de feridas e amarguras, mas que com a ajuda de uma irmã que mesmo sem saber o verdadeiro motivo que ela "matou" seu filho a ajuda tentar a recuperar a alegria de viver.

Juliette vai tentando voltar a vida. Voltar a se encantar por um homem. Voltar a sorrir. Voltar a estar com crianças (sua relação com as sobrinhas vai ficando sempre mais terna). Voltar a ter um emprego. Voltar a ter uma família. E no final do filme o amigo da irmã bate na porta e pergunta por ela (eles estão se conhecendo) e ela lá de cima do quarto diz: "Eu estou aqui" e repete EU ESTOU AQUI.

Este EU ESTOU AQUI dela é o momento em que eu não consigo conter as lágrimas pois é a hora que ela de forma singular avisa que ela está no mundo de novo. Que está viva. Que pode recomeçar. É a frase que encerra o filme. Eu e meu amigo ainda ficamos por algum tempo deixando nossas lágrimas cairem por uma história que marcou cada um de uma forma diferente.

Me lembrei de Miss Célie de A COR PURPURA quando ela diz: "Posso ser pobre, posso ser negra, posso até ser feira, mas eu Estou Aqui. Foi a segunda vez que o cinema me deu esta frase para pensar se de fato Eu (Marcelo) estou aqui.

JEAN CHARLES

Recentemente fiz uma imersão no cinema. Ficar em Brasília nos sábados e domingos não é altamente motivante, mas a cidade é cheia de cinemas.

Para um solitário como eu o cinema é fundamental. E Brasília tem cinemas para todos os gostos. Eu acordo e faço meu roteiro do dia.

Vi 5 filmes. Um deles foi Jean Charles.

O filme não é sensacional. É um filme regular. Um filme que tem altos a baixos. Um filme no entanto que tem Selton Melo. Um filme com ele já não é um filme qualquer. Ele está extraordinário.

O filme me marcou muito pela questão da imigração de brasileiros que saem daqui em busca de uma vida melhor e na maioria das vezes encontram um milhão de dificuldades com o sonho de juntar dinheiro e voltar para o Brasil para ajudar a família, comprar sua casa, casar....

A comunidade brasileira em Londres é enorme. E a cada dia aumenta mais de brasileiros pobres que chegam lá sem falar um única palavra de inglês, mas cheios de esperanças com um futuro que o Brasil não conseguiria dar para eles.

Jean Charles tinha 27 anos quando foi morto no metrô de Londres confudido com um terrorista. Ele morreu em meios as suas esperanças de ter uma vida melhor. Ela era um cara prático e pragmático. Foi para Londres para se dar bem, mas o que encontrou foi uma morte que até hoje (4 anos depois) a Polícia de Londres não consegue se justificar.

O filme tem uma cena em que Sidney Magal vai a Londres para um Show. Lá Jean Charles, junto com todos os Brasileiros, começa a cantar suas canções. Uma das cenas mais bonitas sem dúvida é Jean Charles (Selton Melo) cantando, na verdade ovacionando a música. A expressão de Selton traduz saudades do Brasil, vontade de viver de uma forma melhor. A expressão dele diz tudo.

Todos nós sabíamos o fim do filme. Jean Charles é morto. Tem seus sonhos esfacelados. Para de existir. Deixa de ter uma história para contar e a vida continua para as outras pessoas que achavam que sem ele não haveria vida. E a vida CONTINUA....

É ai que você precisa prestar atenção na história da Vivinha (Vanessa Giácomo). Ela, quando Jean Charles morre, volta ao Brasil e tenta se readaptar a vida de sempre. Não consegue. Volta para Londres e depois de três anos resolve rodar o mundo. Ela rompe com passado e deixa que o futuro seja mais livre e sem planos. Deixa que o futuro aconteça simplesmente. Uma bela imagem do filme.

O Brasil está perdendo seus jovens. Está fracassando com sua juventude sobretudo do interior do Brasil que não consegue ver mobilidade para suas vidas.

Vale ver Jean Charles e entender mais do que tudo que a VIDA das pessoas está sem graça por aqui e é lá fora que elas acham que vão se organizar.

Em geral as histórias destas pessoas que vão para o exterior são tristes. E nós por aqui no Brasil não estamos conseguindo produzir alegria para elas também.

E uma vida sem uma bela história para contar não é uma vida.

DE REPENTE, CALIFÓRNIA

Um amigo me perguntou se eu já tinha visto o filme De repente, Califórnia. Eu disse que nem sabia do que se tratava.

Ele me disse que tinha que ver pois o filme era sobre dois gays que terminam bem. Um história com final feliz.

E me disse que o filme era uma resposta ao Segredo de Brokeback Mountain de Ang Lee que retrata os gays de forma infeliz. Fez duras críticas ao fime dos vaqueiros que se descobrem gays no ínicio dos anos 60.

Não estava entendendo a crítica tão dura ao filme de Ang Lee. Não passa pela minha cabeça que o cinasta quis fazer um filme que retratasse os gays como pessoas tristes e sem possiblidade de experimentar a felicidade. O mesmo Ang Lee fez o lindo Banquete de Casamento. Vale dizer que Brokeback Mountain se passa no ínicio dos anos 60 e o De repente, Califórnia em 2008. O que quase 50 anos não é capaz de mudar?

Fui ver o filme que meu amigo disse que eu não podia deixar de ver. Um outro amigo me ligou e me disse que a cena final era linda e que eu não podia deixar de ver. Havia uma corrente para que eu fosse ver a história dos dois jovens gays que se apaixonam, enfrentam dificuldades e terminam embalados por uma felicidade sem precendentes.

Quando sai do filme fiquei com um vazio. Que felicidade é esta? Isso existe? Passei um torpedo para meu amigo e ele respondeu dizendo que merecemos a felicidade e não finais tristes. Que isso ocorresse pelo menos no cinema.

Eu tive um domingo ácido. Estava com febre, garganta inflamada e muito cansado. O domingo era 28 de junho. Deveria ser a celebração pelos 40 anos de Stonewall e no entanto nenhum governante lembrou da data e nem fez sinais em direção a afirmação dos direitos dos gays.

Não consegui ver graça no filme. Não tenho nada contra ficção, ao contrário. Gosto de final feliz, mas me cobrava como um final feliz para aqueles dois caras lindos, surfistas, talentosos não seria possível?

O domingo foi andando e eu em casa cada vez com mais febre fui percebendo que não podia regular a felicidade. Que era um erro meu achar ruim que o final do filme era feliz demais. Não é justamente isso que as pessoas precisam? Um gay precisa acreditar que pode ser feliz e é num filme que isso pode ficar mais claro ou não?

A felicidade para os gays precisa ser mediada pois quase nada é possível e se você é gay e está no armário a situação fica muito mais complicada.

Não acho que De repente, California seja um filme para eu guardar na memória pois me parece uma água com açucar, mas de fato pode ter cumprido seu papel de lotar as salas de cinema (a minha estava lotada) de gays que querem ver um final feliz possível.

De toda forma eu reafirmei para mi mesmo a importância do Brokeback Mountain. No filme de Ang Lee existe pilulas de felicidade. Momentos especiais, mas o que de fato fica é que o medo de seguir nesta história de homens que se envolvem com homens ainda é bastante complicada.

O final feliz do De repente, Califórnia é um sonho. Os momentos do filme do Ang Lee são o possível? Sigo a pensar.

SIMONAL

Fui ver o documentário sobre Simonal. Uma porrada.

É claro que eu conhecia sua história e os desdobramentos de uma vida que foi interrompida, mas eu não podia imaginar que estava indo ver um filme que me mostraria um cantor extraordinário que conseguia dominar como poucos uma platéia.

O documentário tem fortes e lindos depoimentos de Nelson Mota, Castrinho, Barbara Heliodora, Boni, Arthur da Távola, Toni Tornado, seus filhos Max de Castro e Simoninha entre outros, mas vale destacar que o depoimento de Chico Anysio é de longe o que mais nos traduz quem foi Simonal. Chico defende o cantor e a pessoa que foi Simonal.

Fiquei impressionado com aquele cantor. Fiquei impressionado com a forma que ele envolvia todos na sua música. Fiquei maravilhado como ele brincava com a música. Eu que adoro música, confesso que por preconceito (sei lá porque) nunca tinha dado atenção a ele. Um enorme erro meu.

Simonal teve sua carreira interrompida por conta de uma história de que ele seria um agente da Ditadura. Claro que ele errou na condução do processo que levaram a todos a pensarem nisso (vejam o filme). Quem não comete erros? O erro dele, é claro, não tinha nada a ver com ditadura militar. Errou em ser imaturo e sem dúvida achar que como era o maior cantor brasileiro podia fazer tudo ou falar tudo.

Este erro custou a sua vida. Ele foi assassinado em vida. Viveu o que algumas pessoas explicam como assassinato simbólico. Ele era um fantasma em vida. Ele foi banido da Música Brasileira. Ele que era o maior simplesmente deixou de existir.

Desde o episódio que ele se envolveu nesta confusão até sua morte foram mais de 20 anos de morte em vida. Ele desapareceu e com isso foi perdendo a esperança de voltar a ser o que foi. E ele nunca mais foi o que foi. Com este episódio mal explicado e mal entendido ele deixou de ser um cantor e nós brasileiros perdemos a chance de termos por muitos e muitos anos um grande cantor também. Perdemos todos.

O brasileiro lida mal com os erros. As pessoas ao errarem podem ter suas vidas destroçadas e são esquecidas em minutos. Perdem amigos, fãs, espaços e perdem a própria vontade de viver.

Quando terminou o filme eu pensava porque não conseguimos dar uma segunda chance para as pessoas. Porque somos tão implacáveis com todos. O que é que nos leva a tratar as pessoas com descaso e jogar histórias no ralo como jogarmos a de Simonal?

Sei lá... Sigo sem resposta. É claro que estamos falando da primeira metade da década de 70. É claro que a questão racial pesou, e muito, nos desdobramentos do episódio que levou Simonal a ser morto em vida. É claro que o próprio Simonal arriscou além da conta, mas eu ainda acho que a vida pode ser redescoberta depois dos erros, mas para Simonal isso não foi possível.

Ele agora está morto e esquecido. Morreu em 2000 com 62 anos. Sem dinheiro, sem história que pudesse ser ouvida e sem amigos. Ele não foi o único brasileiro que foi banido da vida em vida e nem será o último, mas com cereza sua história me faz pensar que temos que ter maiores responsabilidades com o que fazemos da vida dos outros por causa de erros ou, às vezes, por causa de lendas que nem sequer existiram (escola base de São Paulo por exemplo).

Hoje estou escutando Simonal. Peço desculpas a ele deixando que sua música, ginga e voz entre dentro de minha casa, minha alma e me faça uma pessoa melhor pois afinal de contas eu moro num país tropical, abençoado por Deu e bonito por Natureza.

DIVÃ

Tempos atrás fui ver Divã com Lilia Cabral. Cinema lotado só me restava a primeira fileira do cinema. Fui com um amigo que não é do Rio.

Em geral vou ao cinema sozinho, mas desta vez estava com um amigo para comentar, rir, gostar ou não gostar do que iria ver.

Mas eu simplesmente adorei a história de Mercedes. Adorei saber que ela é uma pessoa como outra qualquer e que tem suas dúvidas, medos, receios, coragens, fracassos, sucessos e sobretudo ela tem histórias vividas e vontade de viver outras histórias. Ela tem dimensão de que a vida é isso. A vida é uma sucessão de histórias que vamos vivendo e vão deixando as marcas necessárias.

Lilia Cabral está maravilhosa. O roteiro é maravilhoso. Em muitos momentos eu gargalhei. Em alguns eu me emocionei. Em outros eu pensava em meus medos.

Poucas vezes na vida procurei um terapeuta. Sempre que o fiz foi por conta de estar muito triste. Mercedes (Lilia Cabral procura num momento de plena felicidade. E procura para falar sobre esta felicidade.

Ela tem, é claro, seus momentos de infelicidades e de amarguras. Quem não os tem? Quem que quando termina uma relação de afeto ou de paixão não sofre e chora? Mas ela tem uma dimensão de que tem luz no fim do túnel e que a vida vai lhe trazer luz.

Fiquei pensando muito na minha vida. Nas minhas solidões, nas minhas interpretações às vezes muito sem graça do dia a dia. Faz tempo andava triste. Me sentia triste. Não estava tendo vontade de viver fora do meu universo particular. Estava com vontade de me isolar. Eu sabia disso tudo e compartihava com meu amigo que foi ao cinema comigo. O problema é que não via luz no fim do túnel.

Minha decisão de sair da gestão de Juiz de Fora me deu folego. Eu precisa inventar novos desafios para minha vida. Estou mergulhando em novos trabalhos e defesas que estão me dando maior vontade de sair de dentro de casa. Estou entrando na reta final de minha gestão no CONGEMAS. Acho que em mais dois meses eu resolvo todos os maiores desafios do COLEGIADO e posso mergulhar de forma total em NOVIDADES.

Ao ver Divã eu tive absoluta certeza de que eu tenho que ir fundo nas mudanças que estou me provocando. Quero fazer coisas novas. Quero ajudar em novas lutas e quero inovar nas relações, nas confusões e até mesmo nas solidões.

Eu gostei de cada canto da vida de Mercedes, mas o que mais me chamou atenção é que ela arrisca em relações e em vivências novas de forma extraordinária. Ela não deixa a mudança espacar de suas mãos. Ela quer a novidade. E a novidade sem dúvidas nos oferece todo tipo de risco possível.

Fugir na novidade é romper com os riscos. Romper com os riscos é se acorvadar para a gargalhada (que pode vir), para o choro (que também pode vir), para uma grande paixão (que queremos que venha) e para histórias novas e especiais para nossas vidas que queremos e podemos contar.

Vá ao cinema ver divã. Você vai se apaixonar pela Mercedes e pode ter coragens novas na sua vida.

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Assistindo ao OSCAR vi que este filme, que eu pouco ou nada sabia, ganhou 8 prêmios. Fiquei, logicamente, curioso pois ele concorria com O LEITOR (que eu adorei) e com O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (que concorria a 13 prêmios).

O filme indiano (Slundog Milionaire) foi feito com menos de 15 milhões de dolares. Este deve ter sido o pagamento de Brad Pitt em O curioso caso de Benjamin Button.

Minha ida ao cinema durante uma pré estréia foi um encontro com um tema que eu tenho muita curiosidade que é o destino.

Mas também me deparei com uma história de um povo que sofre para viver. Que vive dificuldades enormes. Que se encontra mergulhado em contradições sociais da maior gravidade.

O filme tem uma coisa muito forte que é uma solidariedade que vai sendo consolidada entre quem vive o cotidiano da exclusão, mas não deixa pedra sobre pedra em relação a capacidade do ser humano de explorar o outro ou de transformar o outro em um simples negócio. Fazer GENTE virar nada.

Fiquei mobilizado pela história. Fiquei encantado pelo personagem principal que é o Jamal. Achei o ator talentoso, lindo e que através de seu sorriso ia me dizendo tantas e tantas coisas.

A dupla de crianças que faz os irmãos miseráveis que vivem (sobrevivem) em uma favela de Bombain e que perdem a mãe por intolerância ainda crianças nos encantam de forma tal que em alguns momentos me pegava torcendo por eles mesmo quando eles estavam fazendo coisas completamente erradas.

Duas crianças que aprenderam a se virar para sobreviver num mundo que não pretendia que eles sobrevivessem.

Mas é o DESTINO que me deixa mais preso ao fime. Me emocionei em ver que de certa forma ele ia acertando as perguntas do Programa de TV QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO com base nas experiências que ele foi vivendo e acumulando durante sua vida. De sua história e de suas experiências surgiam as respostas certas.

E havia DESTINO para a vida de Jamal. A vida dele tinha uma condução que só quem acredita que existe DESTINO consegue se emocionar. Porque ele caminhou para aqui ou para ali durante sua vida? Na minha opinião para poder chegar no Programa, reencontrar a menininha que ele descobriu ser o grande amor da sua vida ainda criança e sobretudo para confimar que mesmo com todas as adversidades que passou, ele queria ter FUTURO e não passado.

Vi todos os filmes do OSCAR. Amei o LEITOR. Acho DUVIDA um filme forte e com atores que nos deixam parados. Acho MILK um filme importante e que terá implicâncias na minha vida. Acho a história do O Curioso Caso de Benjamin Button muito legal, mas foi este filme indiano, que mal tinha escutado falar, que me fez ter longas e longas conversas comigo mesmo sobre meu Destino, sobre meu trabalho, sobre minhas emoções, inquietações e conformismos.

Foi com o Jamal que eu percebi que a busca e a procura podem ter um significado extraordinário nas nossas vidas.

A cena final deles dançando na estação de TREM me levou várias vezes as lágrimas. Via o passado, via o presente, mas tinha certeza de que eles queriam e teriam FUTURO.

Não deixe de ir ao cinema e se emocionar.

O LEITOR

Ficar sozinho não é um problema para mim. Eu logo pego um jornal e procuro a parte de cinema. Minha querida amiga Nívea me disse para ver O LEITOR e lá fui eu.

Mas eu não vi apenas um filme. Longe disso. Eu pude ver uma história de amor que normalmente seria incomum. Um garoto de 15 anos se apaixona por uma mulher 20 anos mais velha que ele. Na verdade ambos estão apaixonados. Ela poderia ser mãe dele? Sim. Mas ela não era e foi sua primeira paixão e sua primeira amante.

Mas o filme não trata de uma história de amor de um adolescente com uma mulher mais velha. Ele mergulha fundo nas limitações da verdade nas histórias que vamos construindo para nós mesmos. Mergulha fundo nas vergonhas que vamos consolidando em nossa vida e que no impede de descontruirmos algumas mentiras.

Fala do nazismo e do holocausto colocando em prova perguntas que atravessam questões como lei, ética e moral.

Na Alemanha Nazista havia uma lei a ser cumprida. Esta lei era falha e imoral. Mas naqueles anos 40 eram vistas ou vividas assim. Eram as leis daquele país.

O Filme em nenhum momento justifica o nazismo ou o holocausto, mas nos chama muita atenção sobre sentimentos ocultos que de certa forma eram incorbertos pelas leis de então.

Kate Wislet (lembram dela em Titanic?) faz a oficial Nazista que tem o caso com o garoto. Faz o papel até a velhice. Faz uma Hanna emocionante e desenvolve um trabalho de atriz espetacular. Sua amargura pelo passado, sua vontade de viver um presente generoso com Michael que tem apenas 15 anos e suas incertezas e medo sobre seu futuro nos emocionam a cada minuto, mas nenhuma cena é mais especial do que quando ela confessa ter escrito um relatório que todos sabem que não foi ela quem escreveu.

O ator que faz o jovem Michael se apaixona por Hanna e todos nós no cinema nos apaixonamos por ele de forma imediata. Ele tem 15 anos e pouco sabe da vida e do que virá, mas percebe que amar independe de parâmentros e conceitos e vai fundo nesta aventura.

Suas conversas com seu professor Homosexual (já na universidade) são fundas e me levou a pensar em lei, ordem, moral, ética e porque não dizer perdão.

A questão do perdão volta mais uma vez à minha vida. Desde ontem reflito sobre isso. O Michael mais velho consegue perdoar o passado sombrio de Hanna com leituras de livros. Cenas maravilhosas que só no cinema você vai conseguir entender.

Sai do cinema e liguei para o Antonio. Ele não atendeu. Liguei 3 vezes para a Nívea que também não atendeu. Liguei para o Sami que atendeu, mas não tinha visto o filme. Sem tem com quem conversar resolvi escrever sobre o Leitor.

Eu, neste exato momento precisava de um Michael na minha vida. Que entrasse sem bater na porta e lesse para mim. Eu continuo a fugir deste encontro, mas sei que precisava que ele entrasse porta a dentro me impulsionando a amar de novo e me ensinando, com sua pouca experiência, que existem sentimentos e emoções que são vividas apenas por serem simples.

Eu queria que o Michel lesse e simplificasse minha vida.

Vá ao cinema. Chore com eles, mas não por eles.

ÔNIBUS 174

Em 2000 aconteceu a tragédia do ônibus 174. Eu era Secretário Nacional de Assistência Social e estava participando da elaboração do Plano Nacional de Segurança Pública em Brasilia.

Me lembro que assistia a tudo pela TV com perplexidade. Era um sentimento de que, de fato, o Brasil estava perdendo a guerra para as consequências da miséria, fome, indigência e ausência de uma real estratégia de proteção social.

Fui chamado ao Ministério da Justiça e encontrei o Ministro José Gregori saindo para o Palácio do Planalto. O Presidente Fernando Henrique faria um pronunciamento a nação.

Todos conhecem como acabou a tragédia do ônibus 174? Em mortes.

Já havia visto o documentário sobre a tragédia e também o filme do Bruno Barreto. O Filme é bom. Vale ver

Mas concretamente 8 anos depois posso afirmar que continuamos a perder a guerra para a miséria, pobreza, indigência e contiuamos inventando boas idéias e mudando nome de projetos, programas e planos sem de fato mexer no padrão de violência urbana.

Nós desconhecemos por completo o que está ocorrendo em nossa volta. O nível das desproteções sociais e dos riscos sociais que a sociedade está se impondo por negligência da própria já devia estar em nossa agenda de prioridadedes. Afirmo no entanto que não está.

Na realidade temos uma desproteção enorme no campo da habitação no Brasil que promove aglomerados urbanos sem qualquer condição de se viver com dignidade. Tratamos os Departamentos de Medidas Sócio Educativas no Brasil para adolescentes infratores como se estivéssemos cuidando de ratos predadores e não de gente.

Acusamos os moradores de rua de estarem por lá por serem vagabundos, mas não paramos para pensar que a rua em geral é muito melhor do que a sua própria casa.

Os trabalhadores que atuam na área social são mal remunerados e possuem poucas condições de trabalho. A caridade e a filantropia não ajudam em nada a mudar o cenário que mergulhamos.

Todos os dias um ônibus 174 passa pelas nossas vidas trazendo violência, riscos, morte e nos mostrando que o futuro está sombrio.

Desanimado? Eu? Nunca. Apenas quero alertar as pessoas que a situação é grave, que estamos perdendo de vista o controle da vida diária e que não podemos esquecer de que temos metade dos Brasileiros vivendo na miséria, indigência e pobreza.

Precisamos fazer um pacto nacional contra a letargia de enfrentarmos estes ônibus 174 que estão passando em nossas vidas. Já esperamos demais uma solução e solucionar o problema não é criar um novo programa ou slogan. Acho que entender e aceitar que ele existe seria o primeiro passo.

O segundo: Agir.

O terceiro: Entender cada desproteção e cada risco social que a sociedade vive.

E é bom começarmos logo.

ESTOMAGO

Um tempo atrás fui ao cinema assitir o filme ESTOMAGO. Como sempre o Cinema Nacional nos oferece filmes da maior qualidade.

Eu gosto muito do ator João Miguel. Destaco que prestei atenção nele pela primeira vez em O CÉU DE SUELI. Em ESTOMAGO sua atuação é Espetacular.

O filme fala de um migrante que chega em São Paulo vindo da Paraíba. Vem com a esperança de construir uma vida melhor. Infelizmente não dá certo.

Começa a trabalhar num bar de graça. Ganha o quarto e a comida. Segue sem salário. Ele acaba sendo descoberto como um grande cozinheiro e o bar que era deserto ganha imensa clientela. Ele recebe uma proposta e vai trabalhar em um grande restaurante.

O filme mostra o caminhar de Raimundo Nonato na sua vida na grande cidade e na sua vida na prisão. Pois ele acaba preso. O filme vai mostrando o porque de sua prisão aos poucos. O roteiro é muito bom. Não dá para contar o filme mas afirmo que é um grande Filme.

Alguns temas ficaram para eu pensar quando o filme acabou. Entre eles estão migração, prostituição, trabalho escravo e sistema penitenciário. Temas complicados mas que são tratados com força no filme. Temas que debatemos muito raramente. Na Assistência Social então, debatemos ainda menos.

João Miguel nos mostra em sua extraordinária interpretação o quanto que uma pessoa ingênua e sem nenhuma ligação com o crime ou com a marginalidade pode mudar pelos episódios de desproteções e inseguranças que vão encontrando durante a vida.

Mostra como uma pessoa pode entender os mecanismos da prisão e da marginalidade e como simples preso pode lutar para ganhar força na prisão a partir da mudança que a pessoa é obrigada a viver para sobreviver. O filme retrata de forma magistral como as pessoas podem mudar para pior se elas tiverem condições para que esta mudança ocorra.

Mudar para melhor é o que sempre queremos do ser humano mas necessariamente não é isso que oferecemos em geral para muitos brasileiros. Ver ESTOMAGO é fundamental. Nos mostra que nossas ofertas podem comprometer e muito a vida de outros Raimundos no Brasil.

Precisamos trabalhar, e muito, para que as pessoas mudem, mas que mudem para MELHOR.

Não deixem de ver ESTOMAGO.

LONGE DELA

Eu continuo na minha dura "aventura" de entender melhor a solidão, o evelhecimento, o isolamento, o esquecimento e o abandono. Não tenho mais dúvida de que estou falando de vulnerabilidades urbanas e absolutamente presentes no cotidiano das pessoas.

Mas é, de fato, uma "aventura" tratar de temas tão amargados e de certa forma tão negligenciados pela sociedade e pelo Estado.

Ninguém melhor que as artes e em especial o cinema para ir tão fundo numa questão tão dura de compreender. Entrei no cinema para ver LONGE DELA. Um filme delicado e cativante que fala da relação de um homem e uma mulher com mais de 40 anos de casados que vão ter que se separar por causa de uma doença da mulher.

Ao saber que ela é portadora do mal de Alzheimer ele fará de tudo para vê-la feliz novamente, mas ela perde aos poucos o fio condutor de uma relação que, por conta do esquecimento, não tem mais passado.

O crítico Rodrigo Fonseca do Globo descreve o filme desta maneira: "é uma exposição de conciliações. Seu roteiro pinça alternativas afetivas possíveis diante da mais implacável vereda do abandono: o esquecimento, dor que não dá concessões. Esquecer é um verbo inerente ao Alzheimer".

O filme não faz pontes seguras entre a saudade e o presente. O passado rico de histórias do casal Fiona e Grant deixa de ter sentido com o esquecimento em que mergulha Fiona.

Mas ela não é abandonada por Grant que entende que seu mundo passa a ter outros sentidos e mesmos outros afetos. Da mesma forma que este entende que a vida avança e ele precisa se permitir novos afetos sem deixar sua querida esposa abandonada.

Grande parte do Filme se passa num "asilo" ou casa de repouso ou seja lá como é políticamente certo chamar estes espaços de reclusão ou de retirada da vida diária.

Dói ver pessoas esquecidas ou se esquecendo, abandonadas, solitárias num espaço em que a segurança pessoal está assegurada mas a convivência social e comunitária está arrebentada.

O filme não é um conto de fadas sobre a velhice. Ao contrário o filme é a mostra mais do que concreta que velhice e solidão são temas que não queremos tratar ou debater. Parece ser mais fácil entregar estes "fardos" para as clínicas de repouso.

Eu não tenho dúvidas de que toda esta minha mobilização sobre solidão, velhice e abandono vem da minha recente história com o Abrigo Cristo Redentor. Pensei que poderíamos fazer algo diferente, mas na verdade o que ainda prevalece é a segregação.

Sigo na batalha e na "aventura" de entender estas vulnerabilidades urbanas. Um desafio pessoal que não quero abrir mão.

O MAIS BELO DIA DAS NOSSAS VIDAS

Hoje (10 de Novembro) assisti este filme Italiano. Em DVD.

Fala de família. Fala dos contraditórios de uma família.

Fala de coragens que as pessoas de uma família precisa ter para que os indivíduos sejam felises e não as famílas sejam formais.

Para os gays vale ver. Tem um diálogo lindo sobre decisão.

Para as mulheres é fundamental pois fala que a mulher não pode abrir mão de seus prazeres.

Não deixem de pegar na locadora ou comprar.

E o mais belo dia das nossas vidas é o dia que em a gente decide ser feliz.

CINEMA NACIONAL

Neste último mês assisti 4 Grandes Filmes Nacionais:

1- O Cheiro do Ralo com interpretação do Seltom Mello faz a gente acreditar que um ator, através de sua interpretação, pode ser o FILME.
2- Batismo de Sangue com ótimo roteiro e um Caio Blat perfeito.
3- É Proíbido Proibir onde Caio Blat mais uma vez emociona. Um filme simples mas que mexe muito com a gente no que diz respeito a Juventude.
4- Baixio das Bestas onde mais uma vez temos um Caio Blat perfeito. Este sem dúvida foi um dos filmes mais duros que já vi. Foi um exercício duro mas importante.

Viva o Cinema Nacional.

CAIXA DOIS

Ontem (15 de Abril de 2207) assisti o filme do Bruno Barreto baseado na peça do Juca de Oliveira: Caixa Dois.

É muito divertido e foi uma ótima tirada para o domingo.

O filme trata de corrupção e trambicagens e o que mais me chamou atenção é que o cinema lotado ria sem parar. Ria na verdade de uma situação que o brasileiro aprendeu a conviver nos noticiários.

O Fulvio Stefanini está maravilhoso no palel de banqueiro corrupto.

Boa diversão.

O CHEIRO DO RALO

Ontem ( 25 de março de 2007 ) assisti este filme. O Selton Melo está

extraordinário no papel de um cara que perde a noção total da ética que deve

pautar a relação humana.

Não dá para deixar de ver.

Aliás como dá prazer vc vivenciar um trabalho de Ator de Qualidade.

Hoje (17 de Março de 2007) fui ver "Notas sobre um Escandalo" com a maravilhosa atriz Judi Dench.

Num primeiro momento vc pode pensar que o filme é sobre Pedofilia - baseado numa história real entre uma professora e seu aluno que ocorreu em 1997 na Inglaterra mas logo fica claro que o Filme trata de solidão.

Barbara ( Judi Dench ) vive uma professora que já não acredita na profissão e tem profundos desejos homosexuais. Ela se apaixona com facilidade por mulheres mas nem sei se consegue de fato realizar esta questão com ela mesma.

Mas independente de temas como Lesbianismo, Pedofilia, Educação... o Filme fala profundamente sobre Solidão. E como diz Lia Luft "a solidão é um campo muito vasto para que se atravesse a sós"

É impossivel ficar em Casa e não ir ao Cinema ver este Filme.

Teatro

HAIRSPRAY

Fui ver o Musical HairSpray. Tinha visto o filme no cinema e tinha gostado demais. Quando eu soube que o Miguel Falabella estava montando no Teatro fiquei super animado em assistir.

Eu e 5 amigos não perdemos tempo e fomos ver. Desde o início ficou claro que o espetáculo seria marcante. A atriz que faz a gordinha de Baltimore que quer ser uma estela nos mostrou no primeiro minuto que seria maravilhoso.

E foi. É bom demais ver que temos no Brasil todas as condições de montar espetaculos com aquela qualidade.

Mas a história daquela menina gordinha e que quer ser uma estrela é o que mais me marcou. Ela acredita nela. Acredita no seu potencial, acredita em si e sobretudo acredita na vida. E acredita que vale lutar por todas as suas crenças. E vai a luta.

Ela quer participar de um show na TV e fará tudo para conseguir. E ela consegue. E consegue também que o astro do Show se apaixone por ela. Sua determinação e seu amor a sua vida fazem com que consiga TUDO.

E sua motivação e mobilização também conseguem que sua mãe (muito gorda e desanimada) tenha uma nova esperança sobre a vida e que saia de casa, se produza e passe a celebrar a vida também.

A peça se passa em 1962. Em plena segregação racial no EUA. Os negros americanos só podem participar do Show na TV uma única vez por mês. Seria o dia do Negro (mas só uma vez por mês).

Mas Tracy quer que negros e brancos possam dançar e cantar todos os dias juntos. Quer que a alegria seja de todos e não segregada. E Tracy, que a vida toda viveu o preconceito, não encontra espaço para outros preconceitos. Ela luta, faz passeatas, vai presa e fica parceira de uma luta que a principio não seria dela. Não seria, mas para ela as lutas coletivas são lutas de todos.

A luta dela tem sucesso e o Show que era só para brancos passa a ser um show para todos. E passa a ser um show para brancos, negros, pobres, ricos, magros, gordos... Um show para gente. Um show de VIDA.

Quando a peça acabou o Teatro estava em pé para cantar, aplaudir, celebrar e de certa forma confirmar que o Show é para TODOS e não só para alguns.

Fiquei pensando na VIDA. Na vida que vivemos e defendemos. Em geral defendemos apenas nossas inseguranças e fragilidades. Não pensamos nas inseguranças e fragilidades dos outros. Isso gera desigualdades e intolerâncias.

Aquela gordinha e baixinha de Baltimore dos anos 60 já tinha me ensinado muito no Filme, mas na peça me deu mais animo ainda para prosseguir.

Prosseguir na luta pela VIDA igual para todos. Viva a VIDA.

GLORIOSA

Tempos atrás estive no Rio de Janeiro. Fui ao Rio para ver Marilia Pera em GLORIOSA.

Não se pode deixar de ver Marilia Pera no teatro. Isso é impossível.

Teatro lotado. Marilia maravilhosa. Um história linda.

Marilia interpresta Florence Jenkins, uma milionária excêntrica considerada a pior cantora do mundo. A história é real. Se passa nos Eua na década de 40.

Esta "GLORIOSA" cantora não quer saber se desafina, se grita e berra ao invés de cantar, se é motivo de piada por parte das pessoas que vão assistí-la em seus shows de berro. Esta "GLORIOSA" cantora quer e faz o que mais gosta e o que mais acredita que é cantar. Ela canta com total certeza de que faz isso bem, mas com absoluta convicção de que oferece ao público o seu melhor.

A história é maravilhosa. Tem muitos momentos emocionantes pois nós temos tanto medo de fazer as coisas e em tantos momentos nos faltam coragem para fazer o que achamos que devemos fazer e eis que Florence Jenkins nos diz, através de sua desafinação e de seus berros, que fazer o que se quer é mais do que tudo um ato de coragem e de confiança em nós mesmo.

No final da peça eu e meu amigo tivemos algumas divergências sobre o final. Falavamos no taxi que nos levava do teatro para casa sobre o que percebemos de diferente no espetáculo. Eis que durante nosso papo surge um terceiro ator na conversa que é o motorista de taxi. Este é o Rio de Janeiro.

Marilia está maravilhosa ao fazer a GLORIOSA Florence. Eduardo Galvão e Guida Viana que completam o elenco estão maravilhosos também.

Ir ao Teatro e vivenciar sua liberdade é sempre um prazer. Vale alertar que estamos com esta liberdade em risco pois a Comunista (COMUNISTA EM 2009?), médica e Secretária da Cultura Jandira Feghali não acredita na liberdade do teatro. Quer impor, de seu gabinete, a programação cultural dos teatros da Cidade. Então quem vai decidir as peças e espetáculos não serão mais os diretores e atores e sim o gabinete da Secretaria da Cultura? Eta autoritarismo.

Se a GLORIOSA estivesse num teatro da Prefeitura só poderia ser encenada se Jandira (COMUNISTA?) deixasse. Isso é patético. Tenho absoluta certeza de que o Prefeito Eduardo Paes não concorda com isso e vai impedir que Jandira Fhegali, médica e comunista possa de fato interferir na vida cultural e artística da cidade.

Aliás o Teatro Carlos Gomes perdeu o diretor Cláudio Botelho. O mesmo que adaptou e fez a direção musical de "GLORIOSA". O mesmo de "A NOVIÇA REBELDE", o memso de "Beatles num céu de dimantes". Não concordando com o centralismo de Jandira, pediu demissão. Quem perdeu?

Mas foi um fim de semana maravilhoso. Vi Marilia, andei na praia, tomei sorvete e tive uma certeza: O Rio de Janeiro continua lindo.

...apesar de Jandira - A COMUNISTA.

A NOVIÇA REBELDE

Quando eu era criança assisti o filme A Noviça Rebelde com Julie Andrews. Tinha uma amiga na adolescência, Gisele Monteiro, que adorava este musical e sempre pegava em vídeo para revermos. As músicas sempre me marcaram de uma maneira muito especial.

Certa ocasião um amigo me ligou e disse que tinha ido ver o musical e se emocionado muito. Lembrava sua infância. Lembrava momentos que não voltam mais. Momentos que só nos rondam quando somos crianças.

Eu disse a ele que iria ver no sábado. Mas não esperava ver o que eu vi.

É maravilhoso saber que o Brasil tem capacidade de montar um espetáculo com aquela qualidade. Eu e mais dois amigos víamos com profunda emoção um universo que parecia muito distante.

E foi impossível não chorar várias e várias vezes, mas sobretudo com a tradicional Dó, Ré Mi... Foi maravilhoso. Foi de fato uma viagem especial a um tempo em que eu era uma criança ou adolescente e que tinha sensações e expectativas sobre a vida muito mais carregadas de esperança e de simplicidade do que hoje.

Ao ficarmos adultos a simplicidade vai desaparecendo de nossos atos e nossos encontros com as coisas especiais. Ver a Noviçaa Rebelde me lembrou que o simples pode ser um caminho fundamental para resgatar esperanças.

E como o Leandro eu chorei muito na peça. Chorei com a música, com as crianças, com a atriz que faz a Maria. Chorei em lembrar do Marcelo de 8, 10, 13 e 16 anos. Chorei em saber que de fato eu me lembro de cada um destes Marcelos e cada um deles me orgulha e me ajudaram a chegar até aqui.

A peça termina com um sopro de esperança e reafirma que sonhos devem ser plantados e cultivados. Sonhos devem ser perseguidos. Sonhos devem ser vividos. Sonhos não precisam ser apenas sonhos.

A atriz que faz a Maria é linda e de um talento especial. No final quando todos voltam para os aplausos canta-se de novo Do,Ré, Mi e toda platéia de certa forma vai procurar a sua própria infãncia.

Foi especial me ver criança de novo. Foi especial ver que é possível resgatar a esperança e os sonhos do Marcelinho de 8,10,13 ou 16 anos.

Cheguei em casa e não fui deitar direto. Pensava na peça e nas músicas. Nisso toca o telefone e é a Simone de Brasília para me dizer que a Rosani Cunha tinha morrido naquela tarde na Argentina.

A vida vivida com tanta intensidade é rápida e não é datada. Podemos estar hoje aqui e não estarmos amanhã. Rosani, com todo seu entusiasmo pelo Bolsa Família já não está conosco. Isso dói. Doí profundamente pois ela vivia com entusiasmo seu trabalho e estava mergulhada em viver seu amor. Ela vinha me alertando que trabalhar e amar são coisas que podem andar perfeitamente juntas.

Foi um sábado de muitas lágrimas. Lágrimas de esperança, lágrimas de saudades da infância e lágrimas de dor por ter perdido para sempre a convivência de Rosani Cunha.

ENSINA-ME A VIVER

No ínicio dos anos 80, quando eu era um adolescente cheio dos problemas comuns desta idade e do medo de enfrentar a vida, seus desafios e suas diversidades, eu entrei em uma cinema.

Me lembro vivamente de assistir o filme "Ensina-me a viver" com Ruth Gordn e Bud Cort no Cine Art UFF. O Filme era de 1971. Vale destacar que o filme foi adaptado depois para o teatro. Seu escritor foi um americano chamado Colin Higgins que antes de morrer em 1986 criou uma fundação para defender os valores da vida.

Harold e Maude era o nome do filme em inglês. Harold era um velho de 20 anos e Maude uma jovem de 80 anos. A juventude desta jovem senhora empregnava aquele "velho" de novas idéias e de novos sopros que a vida merece. Harold descobre a vida com a convivência de Maude.

Me lembro que sai do cinema encantado com esta história e com a possibilidade concreta de que a vida pode ser intensa e maravilhosa em qualquer idade.

Quando soube que Glória Menezes estava em São Paulo com a peça "Ensina me a Viver" eu não parei de pensar que era preciso ver esta história de novo, mas agora no teatro. Meus amigos mais velhos me diziam da montagem no Teatro com Madame Morrinout e Diogo Vilela que eu não tive como ver por conta da minha idade.

Quando estava indo para o Timor Leste encontrei um querido amigo no aeroporto e combinamos de nos encontrar dia 16 para ver "Ensina me a Viver". Compromisso marcado com muita antecedência mas que soube honrar para o bem da minha alma.

A atual montagem com direção de João Falcão é maravilhosa. Meu amigo achou a peça datada. Não. Não é. É uma peça que fala de valores, família, amores, preconceitos e possibilidades. A cena de amor entre Maude de 80 anos (Glória Menezes) e Harold de 20 anos (Arlindo Lopes)é tão linda e especial que ainda hoje fico pensando na força cênica de uma atriz como Glória Menezes que se mostra uma atriz total e maravilhosa.

A peça mostra que você pode aprender com qualquer idade e com qualquer pessoa de qualquer idade também. A peça mostra que você pode encontrar uma pessoa especial para ser sua amiga, amigo, amante em qualquer tempo ou época.

Seria improvável uma história de amor entre Harold de 20 anos e Maude de 80 anos? Eu, desde que vi o filme no início dos anos 80, achava que isso pode ser super possível. Glória Menezes e Arlindo Lopes nos disseram, naquela noite de sexta, de que tudo é possível quando existe sintonia nas relaçoões. Não tenho dúvidas de que "Ensina- me a viver" é uma HISTÓRIA de DESCOBERTAS.

A permissão de descobrir a vida é a grande sacada da história. Eu posso descobrir qualquer grande novidade para minha vida mas eu preciso permitir esta descoberta ou descobertas.

Tomara que Maude ensine muita gente a viver além de Harold. Se vier para o Rio eu quero ver de novo e mais uma vez me permitir descobrir novas coisas.

Uma coisa muito especial aconteceu na peça comigo. Existe um momento que Maude pede que Harold cante. Ele se nega. Ela insiste. Eu então penso. Tomara que ele cante "My Way". Tomara. E como que uma mágica que só acontece no teatro ele começa a cantar justamente MY WAY ou seja EU FIZ DO MEU JEITO.

E Glória Menezes é uma estrela que nos emociona e nos mostra o que a maturidade faz com uma atriz.

Eu preciso descobrir a vida. Eu permito que isso ocorra.

NO NATAL A GENTE VEM TE BUSCAR

Vi a peça NO NATAL A GENTE VEM TE BUSCAR do Naoun Alves de Souza. A Cláudia Gimenez faz o papel que foi interpretado pela Marieta Severo a quase 30 anos atrás.

Impossível não pensar no texto e naquela família. O pano de fundo, mais uma vez, é o medo absoluto da solidão.

Mas a solidão não seria uma construção diária de nossas histórias? A solidão aparece do nada e se apresenta: Olá meu nome é solidão e serei sua companheira de hoje em diante?

A Senhora Duprét diz que a solidão é uma longa e profunda conversa consigo mesmo. Ela tem toda razão.

Pensando em "No natal" não tenho dúvidas que as famílias e os índividuos constróem seus universos solitários. Na verdade, as pessoas não conseguem construir pontes de generosidades para que deixem, em algum tempo de sua história, de viver com tanta intensidade o universo pararelo da solidão.

Desde que sai do teatro no sábado com lágrimas nos olhos, não deixo de pensar qual meu papel neste debate sobre solidão. Qual o papel da Assistência Social na construção de vínculos familiares e na construção de espaços de convivência para que as pessoas possam ter a oportunidade de sairem de seus universos paralelos de solidão?

A solidão é um movimento de "assassinato simbólico" pois você ao sentir-se só você deixa de ser irmão de seu irmão, filho de seu pai, esposa de seu esposa e vice-versa. A solidão leva você a deixar de ser uma referência para alguém.

Nos governos, Partidos Políticos, Congresso... falamos muito pouco ou quase nada desta questão. Tratamos a solidão como se ela fosse uma banalidade e não uma forma das pessoas deixarem de ser peças importantes na construção de relações plurais.

Eu não fui sozinho ao Teatro. Naquele momento eu tentava construir pontes.

SASSARICANDO

Na última sexta feira ( 01 de junho de 2007 ) fui assistir SASSARICANDO - E o Rio inventou a Marchinha.

Espetáculo mais do que emocionante. Pensei num Rio distante e de alegria.

Cantei, dancei, chorei com todas aquelas músicas.

No final o que ocorre é uma HOMENAGEM assumida pelos artistas e pela platéia sobre a Cidade do Rio de Janeiro.

Todos devem ver. Segue até o final de Junho no Teatro João Caetano.


Música

Este ano Faz 30 anos que Maysa morreu em um Acidente na Ponte Rio Niterói.

Tenho muitos CDs desta Maravilhosa cantora e compositora. Recentemente descobri uma versão dela cantando em Português a música Italiana PAROLE. Ela canta e Raul Cortez declama. Pode parecer cafona mas na Verdade é MARAVILHOSO.

Hoje só Escutei Maysa. O dia escutando Maysa. E ela cantando Ouça, e ela cantando demais.

Se vc não conhece Maysa é hora de correr nas Lojas pois todas tem seus CDs.

MAYSA

Não dá para não comprar uma coletanea da Maysa cantada por 20 cantores diferentes como Alcione, Ney Matogrosso, Edson Cordeiro, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro,Bibi Ferreira, Cida Moreira, Beth Carvalho...

Um resgate com novas leituras dos maiores sucessos da Grande Maysa que, em 2007, faz 30 anos que faleceu.

A Interprestação de Arnaldo Antunes da música ATÉ QUEM SABE é MARAVILHOSA.

O Disco saiu pela Biscoito Fino.

É imperdivel.


Literatura

Divã

Tinha visto a peça Divã. Faz pouco tempo vi o filme. Faltava ler o livro.

Foi uma leitura maravilhosa. Martha escreve um texto que vai fundo na alma. Separei alguns trechos do livro para compartilhar com vocês:

"Ser feliz para sempre é aceitar com resignação o pão nosso de cada dia e sentir-se imune as tentações, então é deste paraíso que quero fugir. Não estou disposta a inventar dilemas que não existem, mas quero reencontrar aqueles que existem e que foram abafados por esta minha vida correta..."

"Somos todos virgens. Virgens antes do primeiro beijo, antes do primeiro dia que andamos de taxi sozinhos, antes do primeiro emprego. Quem morre sem nunca ter ido a Veneza, sem nunca ter tido um filho, sem nunca ter amado, morre virgem igual, mesmo tendo transado com a cidade inteira. Somos sempre virgens de alguma coisa que ainda não nos aconteceu..."

"Não dói pensar que Gustavo tem outra, enquanto isso for só um pensamento. Teorias não machucam. A aliança no dedo não nos deixou menos vulneráveis ao que acontece do lado de fora da nossa casa. Gustavo tem amigos que não conheço, tem clientes que não conheço, tem um Gustavo que não conheço. Sobraram-lhe nove dedos sem alianças, que o deixam livre para tentar ser feliz como bem lhe convir. "

"Suporto tudo nesta vida, menos as fases transitórias, aquelas onde já abandonamos o lugar em que estávamos mas ainda não chegamos ainda queremos."

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser pertubador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremece, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia."

"Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado."

"Uma dor anula a outra, dizem. De qualquer maneira não pretendo deixar meu dedo preso numa gaveta para me distrair desta outra dor, a saudade."

"Saudade a gente tem é dos pedaços de nós que ficam pelo caminho."

"Deus? Pergunta difícil a sua. Já tem sido deveras estafante acreditar em mim. Mas de uma coisa você pode estar certo, não creio numa onipresença a serviço do bem, numa generosidade cósmica a nos zelar. Deus é o que? Fé. Acreditar na existência de uma força suprema que segure as rédeas prá nós de vez em quando. Deus é uma área de repouso, é umas férias que a gente concede em meio a tantas decisões a tomar. Deus assume como interino enquanto a gente descansa da gente mesmo." Eu uso com regularidade expressões como "graças a Deus", "pelo amor de Deus ", "que Deus trouça ", mas Deus é o apelido que dou à sorte. Em sorte eu acredito."

Foi muito especial ler o livro. Separei apenas alguns trechos. Não deixe de comprar. Você vai rir, chorar, se emocionar e vai viver com força uma injeção especial na sua vida.

Viva a Vida.

Filha, Mãe, Avó e PUTA

Comprei o livro da Gabriela Leite - Filha, Mãe, Avó e PUTA.

Trabalhei com Gabriela em 96 ou 97 numa reunião do Ministério da Saúde sobre as populações mais vulneráveis a epidemia da Aids. Ficamos no mesmo grupo de trabalho. Fizemos um bom relatório, mas nunca mais estivemos juntos.

Claro que sua história sempre me marcou muito. No mundo das ONGs, no início dos anos 90, ela era a nossa representação mais forte. Ela respirava militância. Aqueles anos foram mágicos para os movimentos sociais no Rio de Janeiro. Gente legal, inteligente, desprovida de exigências e de vaidades. A gente fazia reunião a noite, fazia reunião na praça, fazia reunião final de semana e a gente começava a entender novamente o significado da favela.

Ler o livro da Gabriela me fez mergulhar em saudades especiais. Tive saudades do Safe Bar por exemplo. O Safe era um bar de uma ONG chamada NOSS e que virou point dos movimentos sociais na época. Todo mundo ia para lá se divertir. Intelectuais, Professores, Militantes. Lá tinha hetero, bicha, puta, travesti e todos se divertiam embalados em musicas brasileiras e músicas dos anos 70.

Lembrei do ISER - Instituto Superior de Estudos da Religião. Quem não trabalhou lá? Quem não subiu a ladeira da Glória para uma boa reunião e um bom debate? O ISER formou grandes quadros no Brasil.

Gabriela fala com carinho de Benedita da Silva. De uma Benedita que eu gostava muito. De uma mulher negra, favelada e que ajudava outras minorias a se organizarem. Pensei em Benedita da Silva com respeito e carinho. Lembrei que votei nela em 86 e 90 para Deputada Federal. Lembrei que votei nela para Senadora em 1994. Lembrei que tinha orgulho dela ser Assistente Social e fazer uma Política Séria.

Na minha juventude tive duas lideranças políticas que me impressionavam. Uma era Luiza Erundina em São Paulo. Sua vitória para Prefeita em 1988 é um dia para nunca mais esquecer e a outra era justamente Benedita da Silva.

Não deixei de gostar de Benedita da Silva. Ainda gosto muito da Bené que conheci na minha juventude e que lutava com força pelos movimentos sociais e pelas minorias. Benedita, apesar de Evangélica nunca demonstrou preconceito com putas, travestis, gays...Sempre fez pontes entre as minorias e a possibilidade do Direito.

Eu não gosto desta Benedita que está hoje exercendo a Política. Esta não é a que eu conheci, apoiei e adimirei tanto. Gabriela me lembrou o quanto Benedita da Silva foi importante para as minorias. Mudamos todos. Eu, Bendita e as lutas. Hoje sou critico de Benedita, mas não posso deixar de dizer que ela tem uma história importante para quem é minoria no Brasil.

O Livro de Gabriela me fez rir e chorar. Me fez ter saudades de um Marcelo muito distante. Me fez ter saudade dos desafios e das lutas passadas. Me fez ter saudade de acreditar em lutas que podem de fato mexer na vida de todos.

Gabriela foi um Puta que conheceu a Zona como ninguém. Outra questão muito legal no livro é que Gabriela fala da Lourdes do Pará. Uma Puta maravilhosa e super divertida que também conheci em 1995 e que fizemos muitas coisas legais juntos.

Gabriela diz uma hora no livro que queria muito ir embora de um lugar e fala que "ir embora talvez fosse mais importante que chegar". Ela, através desta frase, me deu vários sentidos para ir embora. Ir embora imediatamente sem ter nenhuma certeza de onde e como vou chegar.

Uma mulher extraordinária. Uma mãe ausente. Uma filha complicada. Uma puta experiente, mas sobretudo uma pessoa que acredita na vida e nas histórias que viveu e que viverá. Uma mulher que nunca escondeu ser puta. Uma mulher que criou a DASPU e mexeu com todos nós.

Não deixem de comprar seu livro. Para quem é minoria no Brasil é fundamental. Para quem acredita na vida é especial.

Eu tenho o maior respeito pelas putas. Eu estou estudando os meninos de programa e sua imporância no combate da solidão dos gays mais velhos, dos homens casados que tem desejos por outros homens. Vai virar um livro. Já tem até nome: Vapores. Lendo Gabriela me animei para terminar logo o livro.

E Gabriela explica solidão como ninguém em seu livro.

ACONTECEU NA MANCHETE - AS HISTÓRIAS QUE NINGÚEM CONTOU

Eu continuo com minha rotina de viagens pelo CONGEMAS muito forte. Uma vantagem que descobri nesta vida de avião em avião é que eu tenho um tempo especial para ler e ler é entrar em caminhos inseguros e as vezes indesejados, mas caminhos fundamentais.

Comprei o livro ACONTECEU NA MANCHETE - AS HISTÓRIAS QUE NINGÚEM CONTOU. Lá pela página 260 me deparo com a história da morte do ator Jardel Filho durante a novela Sol de Verão. Quem não se lembra de Sol de Verão? Quem não se lembra do sucesso de Irene Ravache naquela novela que marcou muitos de nós. Quem não se lembra da Rachel (Ravache) e Heitor (Jardel Filho).

Em 1983 Irene diz o Seguinte:

"Nós todos, nessa correria e nesse consumismo, estamos perdendo o tato e o faro para duas coisas muito importantes, a nossa vida e a nossa morte. Cansado? Ah, isso é charminho, ou então isso é psicológico, ou então, isso é frescura, e é mania de preocupação, ou é só uma gripe, deixa para lá. Ninguém mais está parando para tentar ver o que está acontecendo. Não há mais tempo para isso. Ninguém se dá ao luxo de perguntar, de escutar, de tatear. Não só com relação à vida e à morte, com o amor também. As pessoas quase não o reconhecem mais...."

Irene fala isso em 1983, mas tenho cá para mim que não é uma fala datada. Perdemos o tato e o faro para a vida e para a morte. Se temos finitude temos que construir a vida para avançarmos para esta finitude com uma história viva para ser contada.

Será que a vida e a morte se perderam em nossas rotinas pesadas e se perderam em nossas confusões diárias de trabalho, trabalho e trabalho?

A vida não é uma história que deve ter muitos episódios? E estes episódios são contados e vividos por quem? Não somos nós os atores pincipais?

Irene Ravache em 1983 ao perder um grande amigo vai apontar em uma entrevista que a gente não sabe mais distinguir até aonde o viver não está produzindo a nossa própria morte. Viver deve ser ponte para mais vida e não um meio de construir um caminho mais rápido para a morte.

Irene diz que as pessoas estariam se matando: "Estão atablhoadas, então correm, sem nem saber para onde. Isso sem falar da maioria, gente que morre antes de nascer. Falo da incerteza com relação a continuidade de uma profissão, da permanência de uma vida amorosa, da possibilidade de pagar um aluguel,tudo que faz com que a gente não se dê repouso. E não repousando, a gente não se olha. Só corre. Mesmo porque não quer, porque não pode chegar atrasado na vida".

Irene, 26 anos depois de ter dito isso, me deu um tapa muito grande. De fato estamos perdendo o tato e o faro para a vida e para a morte.

Fiquei pensano nesta atriz maravilhosa e em personagens como a Rachel de Sol de Verão, ou como a mãe da peça "Uma relação tão delicada", ou como Dona Lola na novela "Éramos Seis". Agradeci pelo que li.

Deixa eu correr para não chegar atrasado na vida.

Frenéticas

Estou sempre preocupado em ter um livro novo para ler nas minhas viagens pelo Brasil, quando vou participar de reuniões do CONGEMAS, CNAS, CIT ou pelos DEMOCRATAS.

Em um reunião da CIT, que ocorreu em São Luiz/MA, eu comprei a biografia das Frenéticas escrita pela Sandra Pera.

Pensei que iria ler apenas histórias e estórias de um grupo de música que fez sucesso no final dos anos 70. Um livro despretensioso que faria passar o meu tempo.

Me enganei.

A Sandra Pera faz um registro emocionante e da maior qualidade sobre uma época em que o mundo estava mudando sem perceber claramente que estava.

É uma mudança diferente dos anos 60, pois ela era despretensiosa e de certa forma não era politicamente correta. O final dos anos 70 permitiu que nos libertássemos de muitos preconceitos sem que tivéssemos que nos posicionar num campo político.

Sandra Pera fala de aborto, homossexualidade, AIDS, drogas, amores, desamores, relações partilhadas, família, filhos... de uma forma leve e ao mesmo tempo contundente.

Sandra Pera fala do ponto de vista de quem tem uma louca dentro dela ( ...eu tenho uma louca dentro de mim... ). E é esta louca que permite que, ao ler página por página, você risse, chorasse, pensasse e em alguns momentos permitisse que esta louca também entrasse em você.

É muito forte lembrar de Gonzaguinha, da Boate “Dancin Days”. Lembrar dos Dzi Croquetes, da novela Feijão Maravilha, de músicas que até hoje nos fazem dançar e pular. Lembrar com saudades e alegria de um tempo vivido com total intensidade e da construção de muitas mudanças que hoje são possíveis perceber.

Nada me marcou mais no livro de Sandra Pera do que o sentimento que ela teve de que estava na hora de não ser mais uma Frenética. A hora que o sino badala e te avisa que é preciso parar. A hora que Clarice volta a sua mente é te avisa que é preciso mudar.

Tem uma hora que você precisa entender que a vida vai e precisa andar. Que o que você está fazendo já não te dá prazer e já não é importante para você. Que é preciso ousar e pular no vazio. E é neste vazio que você pode encontrar novos caminhos.

Eu li com prazer e por diversas vezes pedi que "uma louca entrasse dentro de mim".

Clarice Lispector ( LIS NO PEITO )

Sempre fui fã desta escritora. Ela morreu em 1977 e 30 anos depois ainda vesculha nossas almas de forma arrebatadora.

Hoje ( Domingo 18 de Março de 2007 ) assisti um Documentário da Tv Cultura de uma entrevista realizada em 1977 ( ano de sua morte ).

Ouvia sem folego ela relatar que estava cansada e até mesmo que se sentia morta naquele momento.

Sempre que leio Clarice eu ganho nova Vida. Sempre que ela terminava um trabalho ela sentia morta. São as contradiçoes que se cruzam.

Mas fica a dica: Documentário Especial - Clarice Lispector - Tv Cultura - DVD